A FALÁCIA DAS VERDADES ABSOLUTAS E A ILUSÃO DAS CERTEZAS

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Quem nunca teve certeza de alguma coisa apenas para descobrir, algum tempo depois, o tamanho do próprio engano, que atire a primeira pedra, mas com cuidado, para não atingir o alvo errado – de novo.

Atualmente, nós vivemos cercados de informação, mas informação não produz automaticamente sabedoria. Às vezes produz apenas pessoas mais bem equipadas para defender aquilo em que já acreditavam. Um dado aqui, uma frase de filósofo ali, um estudo nunca lido e pronto: a convicção ganhou roupa social para sair de casa.

Em meio à incerteza, agarramo-nos às verdades absolutas como náufragos a uma tábua. A comparação é imperfeita. A tábua ao menos costuma admitir que é de madeira.

O problema não está em considerar algo verdadeiro. Sem alguma confiança provisória em fatos, métodos e pessoas, a vida cotidiana seria impossível. O problema começa quando uma conclusão é transformada em uma parte intocável da identidade e deixa de responder a evidências, contexto ou consequências.

Este artigo não pretende provar que nada é verdadeiro. Isso seria apenas mais uma verdade absoluta, desta vez usando boina relativista. A pergunta é outra: por que precisamos tanto de certeza — e o que fazemos quando a realidade não colabora?

A busca pela verdade e o desejo de segurança

Seres humanos procuram padrões, explicações e alguma previsibilidade. Isso faz sentido. Um mundo inteiramente indecifrável seria inabitável. Criamos conceitos, narrativas, teorias, mitos e instituições para organizar a experiência e orientar ações.

Algumas afirmações são bastante estáveis dentro das condições em que se aplicam. Dois mais dois resultará em quatro num sistema aritmético comum. A água possui propriedades que não dependem de nossa opinião. Uma ponte mal calculada não respeitará a diversidade de perspectivas antes de ruir.

As dificuldades aumentam quando tratamos questões morais, culturais, políticas ou existenciais como se fossem operações fechadas. “Existe apenas uma forma correta de viver.” “Meu grupo compreendeu a história.” “Minha religião possui a resposta final.” “A ciência já provou tudo o que importa.”

Essas frases não oferecem apenas explicações. Oferecem segurança, pertencimento e a sensação de que alguém finalmente organizou a bagunça.

É aí que a certeza deixa de ser uma conclusão e passa a ser um abrigo. Questioná-la já não parece uma revisão intelectual, mas uma ameaça à identidade, à comunidade ou ao sentido da vida. A pessoa não está apenas defendendo uma ideia. Está protegendo a casa inteira — e você acabou de bater à porta com um argumento sólido.

Filosofia: séculos de gente discordando com uma elegância variável

A filosofia nunca manteve uma única posição sobre a verdade. Platão buscou realidades estáveis para além da mudança aparente. Aristóteles valorizou a investigação lógica e a observação do mundo. Descartes utilizou a dúvida metódica na tentativa de encontrar um fundamento seguro para o conhecimento. Hume desconfiou do quanto nossas inferências ultrapassam aquilo que a experiência permite garantir.

O ceticismo filosófico, em suas diferentes formas, não precisa significar que nada pode ser conhecido. Podendo funcionar como disciplina: adequar a confiança à qualidade das razões disponíveis.

Nietzsche complicou ainda mais o cenário ao examinar como perspectivas, valores e interesses participam daquilo que chamamos de verdade. Isso não equivale a afirmar que toda interpretação é igualmente válida. Uma perspectiva pode revelar algo e ainda ser ruim, incoerente ou incapaz de enfrentar os fatos.

Foucault investigou as relações entre conhecimento, discurso, instituições e poder. Também não afirmou simplesmente que “toda verdade é política” e que, portanto, qualquer versão serve. Seu trabalho permite perguntar quem possui autoridade para estabelecer regimes de verdade, quais práticas os sustentam e quais efeitos produzem.

Séculos de filosofia não nos entregaram uma frase final. Entregaram algo mais útil: maneiras melhores de formular a dúvida. É menos reconfortante do que uma resposta eterna, mas costuma causar menos estragos.

A dúvida não é um relativismo com boa publicidade

Questionar certezas não significa colocar todas as afirmações no mesmo nível. “Talvez eu esteja errado” não implica “ninguém sabe coisa alguma” nem “cada um possui sua verdade”.

Existe uma diferença monstra entre reconhecer limites e abolir critérios.

Uma afirmação pode ser sustentada por evidências convergentes, métodos transparentes e possibilidade de revisão. Outra pode depender de uma revelação privada, uma corrente de mensagens e o depoimento da tia que mora na esquina. Ambas são crenças mantidas por seres humanos e isso não lhes confere o mesmo valor.

A dúvida saudável pergunta:

  • O que sustenta esta conclusão?
  • Em quais condições ela vale?
  • O que poderia demonstrar que está errada?
  • Que explicações alternativas existem?
  • Meu grau de confiança corresponde à força das evidências?

O relativismo preguiçoso responde: “Tudo é opinião.” Somente uma maneira eficiente de parecer aberto sem precisar avaliar nada.

Quando a fé vira certeza administrativa

Religiões oferecem narrativas sobre origem, morte, sentido, dever e pertencimento. Também criam comunidades, ritos, obras de cuidado, tradições intelectuais e experiências pessoais profundas. Reduzi-las a instrumentos de controle seria tão simplista quanto tratá-las como fontes infalíveis de virtude.

O problema não é a fé. É a sua conversão em licença para governar a consciência alheia.

Ao longo da história, autoridades religiosas e políticas utilizaram doutrinas para legitimar guerras, hierarquias, perseguições e submissão. Também houve religiosos que enfrentaram essas mesmas estruturas, protegeram perseguidos e interpretaram a fé como compromisso com a dúvida, a justiça ou a liberdade.

Portanto, a divisão relevante não é apenas entre religião e ausência de religião. É entre convicções que são capazes de conviver com perguntas e com os sistemas que precisam silenciá-las.

Uma experiência espiritual pode assumir o mistério. Um dogma autoritário oferece respostas antes que a pergunta termine e, se necessário, pune quem insiste no questionamento.

Quando a ciência é tratada como religião — por admiradores e inimigos

A ciência não é um livro sagrado, um bloco homogêneo nem uma coleção de verdades eternas. É um conjunto de práticas para investigar fenômenos, construir modelos, testar hipóteses, medir incertezas e submeter resultados à crítica.

Seu caráter revisável não é uma fraqueza. É um dos mecanismos que permitem corrigir erros.

Isso não significa que todo consenso científico esteja prestes a desabar nem que uma ideia rejeitada hoje será o Nobel de amanhã. Paradigmas mudam, mas a maioria das alegações extraordinárias continua apenas errada. Galileu ter enfrentado resistência não transforma qualquer pessoa contrariada num novo Galileu. Às vezes, o sistema é conservador. Às vezes, sua teoria realmente não funciona.

A mecânica quântica costuma ser convocada para conferir prestígio científico a afirmações sobre consciência, manifestação e criação pessoal da realidade. O experimento da dupla fenda mostra efeitos ligados à medição e à interação física com o sistema; não demonstra que a mente humana, por simplesmente observar, escolhe a realidade que deseja. “Observador”, nesse contexto, não é sinônimo de consciência contemplando o universo com intenção.

Documentários populares podem misturar resultados reais, interpretações controversas e especulação. Persistência cultural não é corroboração experimental. Um prêmio Nobel concedido a pesquisas sobre emaranhamento quântico tampouco valida, por associação, toda narrativa que use a palavra “quântico”.

Criticar exageros científicos é necessário. Usar ciência mal compreendida para fazê-lo é apenas trocar o jaleco de cabide.

Educação para respostas ou educação para perguntas?

Boa parte da educação formal recompensa a resposta correta, a repetição e o cumprimento de prazos. Isso não significa que nenhuma escola ou universidade ensine pensamento crítico, mas significa que questionar pode ocupar um espaço menor do que deveria.

Também é preciso evitar outra certeza confortável: a de que tudo o que aprendemos é apenas “a história dos vencedores” e, portanto, não merece confiança. O conhecimento histórico é construído por meio de fontes incompletas, disputas interpretativas e revisão contínua. Há apagamentos, falsificações e interesses. Há também métodos de crítica documental, comparação de registros e esforços sérios para recuperar vozes silenciadas.

Um livro não é verdadeiro só porque foi impresso. Tampouco é falso porque foi adotado por uma instituição. O trabalho começa depois dessas duas formas de preguiça intelectual.

Ensinar a dúvida significa mostrar como sabemos, onde estão as lacunas e por que algumas interpretações são mais bem sustentadas que outras. Significa permitir que o aluno diga “não sei” sem transformar ignorância temporária em fracasso moral.

Famílias também participam diretamente dessa formação. Uma criança que pode perguntar, discordar com respeito e observar adultos admitindo erros aprende algo difícil de ensinar num livro didático. Mas responsabilizar apenas famílias “desestruturadas” pelo caos escolar seria ignorar pobreza, violência, políticas públicas, condições de trabalho, recursos institucionais e a própria diversidade das experiências familiares.

Escola e família não precisam formar soldados ou operário obedientes nem pequenos debatedores profissionais. Precisariam, idealmente, criar condições para curiosidade, segurança e revisão. Uma tarefa simples de descrever e hercúlea de executar.

Política: a fábrica de certezas em escala industrial

A política organiza conflitos reais de interesse, valor e distribuição de recursos. Não é apenas teatro. Contudo, o teatro ajuda bastante quem prefere transformar problemas complexos em narrativas de mocinhos e vilões.

Quando um partido vira identidade total, divergências passam a soar como traições. O cidadão deixa de avaliar decisões e passa a defender o time. Fatos inconvenientes são propaganda inimiga; erros próprios são contexto; erros alheios, viram provas definitivas de corrupção moral.

Ideologias são mapas. Elas podem organizar problemas e orientar projetos coletivos. Mas quando passam a explicar tudo, prever tudo e absolver o próprio lado de qualquer contradição, deixam de ser instrumentos e tornam-se religiões sem transcendência — embora frequentemente conservem seus inquisidores.

O casamento entre poder político e certeza moral é antigo. A novidade digital aqui é a capacidade de distribuir versões simplificadas, indignação e inimigos em tempo real.

Algoritmos não criaram o dogmatismo; apenas aprenderam a remunerá-lo

Plataformas digitais selecionam conteúdos segundo sistemas que consideram comportamento, relevância prevista e objetivos comerciais. Essa personalização pode facilitar descobertas, mas também pode repetir aquilo que prende atenção, reforçar familiaridade e limitar o contato espontâneo com posições diferentes.

Os algoritmos não “decidem tudo o que pensamos”, e usuários não são bonecos de barro sem agência. Mas ainda assim, vale considerar que o ambiente não é neutro. Conteúdos indignantes, simplificados e emocionalmente carregados possuem vantagens competitivas num sistema que mede cliques, permanência e compartilhamentos.

Os influenciadores também não são culpados por todas as vulnerabilidades do público que o segue. Mas possuir influência e lucrar com recomendações cria responsabilidade. Promover jogos de azar, curas duvidosas ou produtos financeiros de alto risco não se torna eticamente neutro porque o anúncio contém letras pequenas.

O público conserva responsabilidade por suas decisões, mas essa responsabilidade não existe num vácuo. Desespero econômico, educação precária, exaustão e promessas de dinheiro fácil formam um mercado particularmente fértil. Dizer apenas “quem caiu foi porque quis” é uma forma confortável de ignorar a arquitetura engenhosa da armadilha.

A certeza como produto emocional

Convicções não se formam numa disputa simples entre um cérebro emocional e outro racional. O modelo do “cérebro reptiliano, sistema límbico e neocórtex” é uma simplificação ultrapassada quando apresentado como três camadas independentes disputando o comando.

Emoção e raciocínio interagem. Medo pode distorcer uma avaliação, mas também sinalizar risco. Afeto pode produzir lealdade cega, mas também orientar cuidado e compromisso. A razão não paira fora do corpo, preenchendo formulários enquanto regiões primitivas fazem uma bagunça no andar térreo.

O viés de confirmação ajuda a explicar por que procuramos e interpretamos informações de modo favorável ao que já acreditamos. Porém, conhecer o nome do viés não nos imuniza contra ele. Pois, em geral, aprendemos rapidamente a diagnosticá-lo nos outros.

Propaganda, publicidade e comunicação política exploram desejos, medos, pertencimento e aspirações. Edward Bernays tornou-se emblemático pela aplicação de ideias da psicologia e das relações públicas à persuasão de massa. O mecanismo continua reconhecível: produtos não vendem apenas utilidade; vendem identidade, segurança, status e esperança.

A certeza também é um produto emocional. Ela reduz, ainda que temporariamente, o desconforto de não saber. Por isso, existe mercado para quem promete uma explicação completa, um culpado único e uma saída garantida.

O cultivo da dúvida sem a romantização da própria dúvida

Duvidar de tudo o tempo inteiro não é sabedoria. É paralisia — ou apenas pose.

Precisamos confiar provisoriamente em muitas coisas para agir. A diferença está em manter proporção entre confiança e evidência, risco e verificação.

Nesse contexto, algumas práticas simples podem ajudar:

  • Dê porcentagens internas à sua certeza. Não é necessário calcular com precisão. Basta distinguir “tenho bons motivos” de “apostaria minha dignidade e a casa dos vizinhos nisso”.
  • Procure a melhor objeção. Não a versão mais estúpida da posição contrária. Porque essa todo mundo vence.
  • Defina o que mudaria sua opinião. Se a resposta for “nada”, você não está investigando.
  • Separe identidade de conclusão. Mudar de ideia não apaga quem você é. Talvez apenas obrigue sua biografia a aceitar uma pequena edição.
  • Observe quem lucra com a certeza. Inclusive quando esse alguém é você, lucrando em conforto, pertencimento ou superioridade moral.
  • Aja mesmo sem garantia total. Incerteza não elimina responsabilidade. Em muitos casos, precisamos escolher com as melhores informações disponíveis e conservar margem para correção.

As certezas são o novo ópio do povo?

Talvez a metáfora seja tentadora demais. O problema dos ópios intelectuais é que quase sempre reconhecemos com facilidade a droga preferida dos outros.

Certezas políticas, religiosas, científicas, morais e digitais oferecem alívio. Organizam o caos, entregam identidade e poupam o esforço de revisar premissas. Todos querem ter razão e cada vez menos pessoas desejam descobrir o preço de estarem erradas.

Pensamento crítico não é rejeitar tudo, suspeitar de todos ou cultivar uma personalidade permanentemente contrária. É submeter afirmações — sobretudo as nossas próprias — a critérios que não mudem apenas para preservar o resultado desejado.

A vida é incerta, complexa e contraditória. O problema não está em errar. Está em transformar o erro em patrimônio afetivo e defendê-lo para não parecer fraco.

Não carregue como única certeza a frase de que “todas as certezas devem ser questionadas”; até ela pode virar um pequeno dogma satisfeito consigo mesmo. Carregue algo mais trabalhoso: a disposição de perguntar o que sabe, como sabe, o que ignora e quais consequências podem surgir se estiver enganado.

  • Reivindique sua autonomia intelectual. Não aceite o pacote fechado das certezas prontas
  • Questione tudo — inclusive a necessidade de parecer alguém que questiona tudo.