A PLASTICIDADE E A ILUSÃO DO EU


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Todo mundo possui algum tipo de ritual matinal. Acordar, espreguiçar-se, olhar para o nada, levantar, peidar, abrir a janela, preparar café, ir ao banheiro e, em algum momento, encarar o espelho.

Nesse momento, ao olhar-se, talvez você pense: “Bom dia, eu.”

A poesia matutina é, de fato, linda. Seria uma pena estragá-la perguntando qual “eu” recebeu o cumprimento. O de ontem? O que aparece no espelho? O que existe nas suas lembranças? O personagem que você apresenta aos outros? Ou aquele que, dois cafés depois, já terá mudado de humor, objetivo e opinião?

Estamos acostumados a tratar o eu como uma entidade sólida: alguma coisa contínua, privada e central que habita o corpo, acumula experiências e assina nossas decisões. A linguagem ajuda. Dizemos “meu corpo”, “minha mente”, “minhas emoções”, como se houvesse um proprietário claramente separado de tudo o que possui.

Mas, quando procuramos esse proprietário, encontramos corpo, memória, percepção, hábitos, relações, expectativas e uma narrativa tentando manter tudo minimamente coerente. Encontramos muitos processos. O pequeno diretor instalado atrás dos olhos permanece estranhamente indisponível para entrevistas.

Mas isso significa que você não existe. Calma. Ainda não precisa devolver o RG. A questão mais interessante não é se o eu é real ou ilusório em sentido absoluto. É que tipo de realidade ele possui — e o que muda quando deixamos de tratá-lo como uma peça esculpida em mármore.

Um desacordo de alguns milênios

Apesar de todo entusiasmo publicitário que acompanha qualquer ideia depois que alguém acrescenta a imagem de um cérebro, o problema do eu não começou com a neurociência.

Tradições indianas ligadas ao Vedānta falaram de ātman e de sua relação com uma realidade última. O budismo formulou a doutrina do não-eu: aquilo que tomamos por identidade permanente pode ser examinado como um conjunto impermanente de processos, sem um núcleo fixo e independente.

No Ocidente, as respostas também se multiplicaram. Platão relacionou a identidade à alma. Aristóteles recusou uma separação tão simples entre alma e corpo. Descartes procurou certeza no sujeito que pensa. Locke destacou a continuidade da consciência e da memória. Hume, ao voltar-se para dentro, afirmou encontrar percepções em fluxo, não uma substância chamada eu.

Kant complicou a busca: o sujeito que organiza a experiência não seria apenas mais um objeto encontrado dentro dela. Nietzsche desconfiou da unidade prometida pela gramática. Freud retirou da consciência o cargo de soberana da vida psíquica. Beauvoir mostrou que a liberdade não surge fora do corpo, da história e das condições sociais. Foucault investigou como instituições, práticas e categorias participam da produção dos sujeitos que acreditamos simplesmente ser.

Nenhuma dessas posições diz exatamente a mesma coisa. Reuni-las sob a frase “todos descobriram que o eu é uma ilusão” seria uma violência conceitual bastante eficiente — e justamente o tipo de certeza que este tema deveria impedir.

O que elas oferecem é um campo de tensão: essência ou processo, unidade ou multiplicidade, interioridade ou relação, continuidade ou transformação. Talvez o eu exista menos como objeto e mais como organização.

Uma ficção que pode ser funcional

Chamar o eu de construção não significa chamá-lo de mentira. Dinheiro, fronteiras, calendários e empresas são construções humanas. Isso não os torna incapazes de pagar contas, impedir passagens, organizar compromissos ou demitir alguém numa sexta-feira 13. Algo construído não é sinônimo de imaginário no sentido de irrelevante.

O eu pode ser compreendido como um modelo que integra informações do corpo, memórias, papéis sociais, objetivos e expectativas. Ele produz alguma continuidade entre a criança que você foi, a pessoa que assinou um contrato ontem e aquela que terá de lidar com as consequências amanhã. E essa continuidade nunca é perfeita. Memórias são seletivas e reconstruídas. Mudamos de valores, esquecemos episódios, incorporamos descrições alheias e reinterpretamos o passado de acordo com o presente. Ainda assim, a narrativa pessoal cumpre funções importantes: nos permite planejar, prometer, reparar, pertencer e responder pelos nossos próprios atos.

O problema, portanto, não é possuir uma história sobre si mesmo. É esquecer que se trata de uma história em revisão e começar a protegê-la da realidade. O “Eu sou assim” costuma ser a frase usada quando um padrão cansou de apresentar documentos. Às vezes descrevendo uma regularidade. Outras vezes, apenas transformando repetição em essência para assim, evitar o trabalho da mudança.

Plasticidade não é magia

Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de modificar sua organização e funcionamento em relação à experiência, aprendizagem, desenvolvimento, lesões e outras condições. Ela não termina na infância, embora tipos e graus de plasticidade variem ao longo da vida. Aprender uma habilidade, adaptar-se a uma alteração sensorial ou recuperar parcialmente funções depois de uma lesão pode envolver mudanças em circuitos e padrões de atividade. A memória também depende da capacidade de modificar conexões.

Isso é extraordinário. Não é, porém, um cheque em branco biológico.

A plasticidade não significa que qualquer pessoa possa tornar-se qualquer coisa mediante desejo, visualização ou repetição de frases no espelho. Cérebros mudam dentro de limites impostos por genética, desenvolvimento, saúde, ambiente, recursos e história. Algumas mudanças são difíceis; outras, impossíveis. Algumas adaptações ajudam. Outras mantêm vícios, medos e padrões destrutivos.

O cérebro aprende com o que praticamos, mas também com aquilo a que somos repetidamente expostos. Ele pode aperfeiçoar uma habilidade e consolidar uma fuga. Pode adaptar-se durante uma reabilitação e tornar um hábito cada vez mais automático.

Portanto, a plasticidade não prova que o eu seja uma ilusão. Ela demonstra algo mais modesto e mais útil: parte daquilo que sustenta nossa maneira de perceber, agir e lembrar pode mudar.

Não somos argila ilimitada. Mas também não somos estátuas prontas.

O eu entre cérebro, corpo e mundo

É tentador localizar a identidade em algum canto específico do cérebro e declarar o caso encerrado. Mas a experiência de ser alguém depende de processos distribuídos: memória autobiográfica, percepção corporal, emoção, linguagem, atenção, reconhecimento social e capacidade de imaginar o futuro.

Alterações em alguns desses processos podem modificar profundamente a identidade. Perder memórias autobiográficas, sofrer determinada lesão, mudar de ambiente, receber um diagnóstico ou atravessar uma relação importante não troca uma alma por outra. Mas modifica os materiais com que a continuidade pessoal é construída.

O corpo também participa disso. Fome, dor, sono, hormônios, doença e envelhecimento alteram o que sentimos, o que conseguimos fazer e o que pensamos sobre nós mesmos. A cultura, por sua vez, fornece categorias a isso tudo: gênero, profissão, nacionalidade, normalidade, sucesso, fracasso. E as relações devolvem versões de quem somos e, com frequência, passamos anos confundindo o reflexo de nós oferecido por alguém com um retrato objetivo.

O eu não está apenas “dentro”. Ele emerge na relação entre organismo, memória, linguagem, ambiente e outros seres humanos.

Isso não elimina a individualidade. Apenas retira dela a fantasia da independência absoluta.

O culto contemporâneo à autenticidade

Nunca se falou tanto em “ser você mesmo”. Nunca se trabalhou tanto para tornar esse “você” reconhecível, publicável e adequado às plataformas.

A identidade digital é cuidadosamente montada: preferências, imagens, causas, experiências e vulnerabilidades selecionadas. A autenticidade virou um gênero de performance. Atualmente, até a espontaneidade precisa de boa iluminação.

Algoritmos participam desse processo ao recomendar músicas, pessoas, produtos e ideias com base em comportamentos anteriores. Eles não sabem quem você é num sentido profundo. Mas sabem padrões suficientes para prever parte do que provavelmente prenderá sua atenção. E isso já é bastante poder — não é preciso conceder-lhes onisciência para reconhecer isso.

Toda essa personalização pode estreitar possibilidades. Se o sistema insiste em oferecer versões do que você já consumiu, o passado ganha vantagem sobre tudo aquilo que ainda poderia descobrir. A identidade torna-se uma profecia estatística: você clicou, logo gosta; gostou, logo receberá mais; recebeu mais, logo talvez nunca saiba o que existia ao lado.

Reinventar-se pode ser uma forma de resistência a essa repetição. Não no sentido de trocar de personalidade a cada semana, mas de recusar a ideia de que padrões anteriores possuem direito vitalício sobre o futuro.

Duas experiências e nenhuma prova metafísica

Participei de dois rituais com ayahuasca, em 2023 e 2024. Foram experiências distintas e importantes para a maneira como passei a pensar minha identidade. Mas isso não as transformou em um acesso privilegiado às estruturas do universo.

A ayahuasca em si, combina, em formulações tradicionais, plantas que fornecem DMT e beta-carbolinas capazes de inibir temporariamente sua degradação no organismo. Podendo produzir alterações intensas de percepção, emoção, memória e sensação de si mesmo. Contudo, ela também envolve riscos, contraindicações, possíveis interações medicamentosas e contextos cerimoniais muito diferentes. Pesquisa clínica sobre potenciais aplicações existe, mas não autoriza promessas de cura nem torna qualquer ritual seguro por definição.

Meu primeiro ritual foi uma implosão estética. Vi fractais de olhos abertos e fechados, padrões formando olhos escuros, imagens que se multiplicavam sempre que eu tentava prendê-las numa explicação. Quando parei de tentar entender, a experiência mudou. Depois, chorei durante dias por algo que não conseguia nomear.

Minha interpretação foi esta: tentar reduzir toda experiência aos limites do eu narrativo pode ser como querer engarrafar o mar numa garrafa de dois litros. Uma metáfora produzida sob efeito de uma substância, não um resultado de laboratório. Ainda assim, ela me disse algo sobre minha necessidade de controle.

No segundo ritual, caminhei por um túnel cujas paredes exibiam pessoas, épocas e corpos diferentes. Durante a experiência, todos pareciam ser “eus”. Senti que eu não era minha história, mas aquilo que observava enquanto ela acontecia.

Essa sensação foi real enquanto experiência. Mas sua conclusão metafísica continua sendo uma interpretação. Eu poderia falar em vidas passadas, dissolução do ego, memória, simbolização ou atividade cerebral alterada. O fato de uma hipótese emocionar mais não lhe concede automaticamente prioridade epistemológica.

Dessas duas experiências, o que permaneceu foi algo menos espetacular: minha identidade parecia mais larga e menos rígida. Os rituais não me revelaram quem eu “realmente era”. Ajudaram-me a perceber o quanto eu desejava que existisse uma resposta final para a ideia de quem eu era.

Experiências intensas, como essas, podem abrir perguntas. O perigo começa quando as transformamos em certificado de verdade ou quando passamos de retiro em retiro procurando uma essência que talvez não esteja escondida em lugar algum.

Trocar um ego comum por um ego iluminado continua sendo apenas uma troca de figurino.

Se o eu muda, quem responde por ele?

A ideia de um eu construído pode parecer libertadora: se não sou fixo, posso mudar. Mas também pode ser utilizada como desculpa: se já não sou a pessoa que agiu ontem, por que responder por ela hoje? Porque transformação não apaga continuidade suficiente para responsabilidade.

Você pode reinterpretar o passado sem desassiná-lo. Pode deixar de se identificar com uma ação e ainda reparar suas consequências. Pode reconhecer condicionamentos sem transformá-los em absolvição automática.

O eu não precisa ser uma substância imutável para que promessas, vínculos e responsabilidades façam sentido. Basta que exista continuidade prática: um organismo, uma história, relações e consequências que atravessam as mudanças.

Talvez liberdade não seja descobrir um “eu verdadeiro” escondido sob todas as influências. Talvez seja ampliar a capacidade de reconhecer aquilo que nos compõe, interromper alguns automatismos e participar mais conscientemente daquilo que estamos nos tornando.

A leveza de não terminar a própria definição

Aceitar a plasticidade do eu não exige negar toda forma de estabilidade. Alguns traços persistem, alguns compromissos merecem durar e algumas identidades protegem vínculos importantes. Fluidez não é obrigação de dissolver-se.

O ganho está em trocar essência por hipótese. Em vez de “sou incapaz”, talvez: “tenho falhado nisto sob estas condições”. Em vez de “sempre fui assim”, talvez: “este padrão tem uma história”. Em vez de procurar a personalidade definitiva, podemos observar quais versões de nós aparecem em diferentes relações, ambientes e estados corporais.

Autoconhecimento deixa então de ser uma escavação em busca de um fóssil interior. Torna-se um acompanhamento: perceber continuidades, rupturas, condicionamentos e escolhas sem exigir que tudo forme uma narrativa perfeitamente coerente.

Somos formas que se desdobram, não verdades esculpidas em mármore. O eu funciona como uma lente provisória, alterada por memória, afeto, corpo, linguagem, trauma, aprendizagem e silêncio.

A realidade já escorre entre nossos dedos. Sempre escorreu.

O que muda é nossa disposição para caminhar sem colocar um ponto-final onde ainda existem reticências.